Equipe

terça-feira, 24 de abril de 2018

Desvendando Princesas - Vanessa Marques





Título: Desvendando Princesas
Autora: Vanessa Marques
Editora: PL
Páginas: 365

Sinopse:
 
São Vicente está em festa! Finalmente, o príncipe Nicolas Volkovich irá se casar com uma plebeia! A família Haddad está em êxtase porque, em breve, sua primogênita se tornará uma princesa! Seria um conto de fadas perfeito, se no meio dele não existisse um porém… Luciana, a futura princesa, desapareceu e somente sua irmã poderá ajudá-la. Isabella Haddad saiu de São Vicente após um momento trágico e prometeu jamais retornar. Seguiu sua vida e teve sua chance de recomeçar. Até que um simples telefonema na madrugada diz exatamente o que ela menos queria: era a hora de voltar para casa! Será que Isabella conseguirá desvendar o mistério do desaparecimento da princesa e resistir a tudo aquilo que deixou para trás? Até que ponto o perdão pode apagar as mágoas do passado?

Resenha:

Esqueça tudo o que você conhece sobre livros de princesas. Este não tem nada de convencional.

Começando pela protagonista da história que de princesa não tem nada. Isabella é a irmã da futura princesa, o que por si só é pesado demais. Passar a vida a sombra de sua irmã em uma sociedade machista, tornou Isa uma mulher prática e com arame farpado ao redor do coração.


Fugir carregando um peso enorme foi a única solução para a heroína. Não foi fácil se reerguer em uma outra nação, mas ela conseguiu e se tornou uma policial.

Se o telefone não tocasse naquela madrugada , jamais voltaria a São Vicente, mas ele tocou e ouvir sua irmã pedindo socorro mudou sua vida mais uma vez, vencendo todos seus temores Isabella retorna para desvendar o sequestro de sua irmã.

Voltar significar encontrar Nicolas noivo de sua irmã  e Lucca (lindo!). Em meio a tiros, suspeitas e muita a ação a trama se desenrola.

Sobre os personagens:

Quando a trama é bem amarrada os personagens se completam, é exatamente o  que acontece em Desvendando Princesas. Como disse logo no início o livro não tem nada de clichê.

Isabella não é a irmã invejosa da princesa, nem fraca ou chorona; ao contrario, ela quebra tudo. Poderosa,inteligente e estrategista, Isa é dotada de uma humanidade incrível. O amor fraternal assim como sua lealdade aos amigos a tornam uma das minhas super heroínas favoritas.

Lucca, Lucca. O espírito protetor deste  homem não é deste mundo.

Contudo ele não é perfeito e assim como muitos de nós tem suas falhas(fiquei brava com eles, mas já perdoei).

Considerações finais:

 
O livro tem uma escrita leve, dinâmica e flui naturalmente. O texto é narrado por Isabella, porém com alguns capítulos narrados por Lucca e Nicolas. Os três tem suas personalidades expressas em suas narrações, parabéns Vanessa pois na maioria dos livros tenho percebido dificuldades dos autores com diversos narradores onde não consigo enxergar diferenças reais entre eles. Outro ponto positivo é o fator surpresa, durante toda trama fui entrando em um ritmo rápido de mistério e revelação.

Acabei de citar o ritmo, o livro me prendeu do início ao fim, elogios ao trabalho de revisão.

A capa é linda, fiquei encantada a primeira vista, afinal tem um trabalho de cor, luz e intensidade muito interessante.

Resumindo, amei o livro, adorei a capa e estou bem feliz por conhecer a obra de uma jovem autora brasileira com futuro promissor.

Leu? Gostou? Comenta!




 


domingo, 22 de abril de 2018

Cidadela (A.J. Cronin)



Cidadela (A.J. Cronin)

O livro que motivou esta resenha é uma aula de filosofia materialista. Explico: fica bem difícil lê-lo sem ter em vista os conflitos da vida material do protagonista, Andrew Manson. A Cidadela é um romance lançado em 1937 pelo escocês Archibald Joseph Cronin. Através de um realismo cáustico, cria uma história que expressa anseios de vozes que na realidade não conseguem ser audíveis. Caso tenha interesse, também existe um filme (do cinema mudo) desta história, de 1938.

Se o trabalho compulsório persiste ainda hoje, não era diferente à época do seu lançamento, no início do século XX. Os operários das minas de carvão do País de Gales morreram de tuberculose, câncer ou em desastres como desmoronamentos de rochas nas minas ou até no desabamento de entulhos em Aberlan, fato bastante cruel que vitimou crianças, trabalhadores e trabalhadoras.

Uma rápida pesquisa e vemos que o substantivo que titula o livro, Cidadela, consiste numa proteção que rodeia uma cidade ou um castelo, ou seja, como se fosse uma fortaleza. Bem, faz sentido se pensarmos que Andrew chega completamente exposto, inseguro, pobríssimo, à sua nova vida, em uma cidade desconhecida, com pessoas desconhecidas, buscando algum tipo de base para se sustentar, pois não tem nem o socorro familiar por causa da morte dos pais. É como se fosse uma saga de uma pessoa normal em busca de segurança.  Explico melhor nas palavras seguintes.

Sinopse

Andrew Manson é um recém-formado medido britânico. Ele consegue o seu primeiro emprego como auxiliar de médico numa cidade no País de Gales, cuja economia gira em torno da extração de carvão nas minas. Jovem, inseguro, tímido, o que viu na prática foi bem diferente. Ele se deparou com a responsabilidade de ser médico principal, uma vez que o chefe da clínica estava na realidade quase morrendo por uma doença gravíssima.

A população operária da cidade sofre com a insalubridade nas condições de trabalho, no entanto, como estamos aqui no início do século XX, não se sabe que os problemas de saúde são oriundos do ar tóxico das minas. Muito pobre, Andrew se tornou órfão ainda no início da sua formação universitária, e teve que financiá-la, endividando-se, para conseguir se formar.

A história vai para o seu eixo central depois que o médico se consolida, já casado com o amor da sua vida, a professora Christine, que, como era costumeiro naquela sociedade ainda mais patriarcal, se aposentou do seu ofício para ser dona de casa. Mudando-se para cidades e clínicas com melhores condições, ele se vê cada vez mais inserido na classe média, que ele tanto desprezava até pouco tempo atrás. Será que ele vai persistir com seu desprezo às classes médias? Aos médicos que fazem de tudo para ganhar dinheiro? Em melhores condições materiais, ele permanece incorruptível na indignação com a desigualdade social?

O que ficou do que passou: minha interpretação

A vida material influencia de forma decisiva os pensamentos das pessoas — é o que propagava aquele barbudo, Marx o nome dele. Considero que esse seja o fio condutor das ações do protagonista da história. Foram as suas privações que o fizeram sensível às condições degradantes com as quais os trabalhadores tinham que conviver, e é pela melhoria em sua condição de vida que ele corre o risco de se esquecer do que ele tanto defendia. Uma ressalva, é claro: o autor não expressa tal intenção; é apenas uma leitura particular.

O escritor do livro também tem formação em medicina e possivelmente trouxe bastante da própria experiência, sobretudo no começo do livro, quando o médico sofria com a insegurança de quem está apenas começando. Outro trabalho do escritor que tem uma pegada parecida é Anos de Tormenta (Shannon’s Way), romance no qual o autor também mostra as dificuldades de um médico inexperiente em consolidar a carreira, e a satisfação que advém da superação dessas barreiras.

Livro fenomenal, intenso por demais! Deu seguimento à sequência de livros incríveis com os quais estou tendo a sorte de me deparar. A linguagem do escritor não é a mais agradável do mundo. Seu êxito reside no enredo, na intensidade das reflexões que suscita, possibilitando interpretações diversas, tanto subjetivas quanto, como a que aqui foi feita, sociológicas. Super indico para quem procura um livro com uma boa e intensa história, não para quem quer leveza


Matheus Andrade,
22/04/2018

sexta-feira, 20 de abril de 2018

A mulher na janela (A. J. Finn)

Sinopse:

     Anna Fox mora sozinha na bela casa que um dia abrigou sua família feliz. Separada do marido e da filha e sofrendo de uma fobia que a mantém reclusa, ela passa os dias bebendo (muito) vinho, assistindo a filmes antigos, conversando com estranhos na internet e... espionando os vizinhos. 
     Quando os Russells – pai, mãe e o filho adolescente – se mudam para a casa do outro lado do parque, Anna fica obcecada por aquela família perfeita. Até que certa noite, bisbilhotando através de sua câmera, ela vê na casa deles algo que a deixa aterrorizada e faz seu mundo – e seus segredos chocantes – começar a ruir. 
     Mas será que o que testemunhou aconteceu mesmo? 
     O que é realidade? 
     O que é imaginação? 
    Existe realmente alguém em perigo? 
    E quem está no controle? 
    Neste thriller diabolicamente viciante, ninguém – e nada – é o que parece. "A Mulher Na Janela" é um suspense psicológico engenhoso e comovente que remete ao melhor de Hitchcock.

Resenha:

     Ganhei esse livro no Encontro de Livreiros da Arqueiro/Sextante que aconteceu esse mês. Como está rolando uma propaganda massiva dele achei que realmente deveria ser muito bom para ter tanto investimento. Então mais uma vez abandonei minha extensa listinha de livros para ler esse ano e furei a fila, ainda bem que não me arrependi.
     O início é bem massante mas depois de finalizar a leitura compreendi o que o autor queria passar... além da ideia de uma rotina rígida e solitária a impressão de realidades ao seu redor que a personagem principal vivia. Então caro leitor, se você resolver encarar essa leitura eu digo: NÃO DESANIME! Ou depois de se cansar da mesmice você pode pular algumas páginas (lá para a página 100 para não perder o foco tá bom) que não irá influenciar em nada na sua compreensão da história.
     Depois desse início bastante repetitivo é que a história começa a pegar fogo e temos a percepção de que algo está errado com o que Anna está vivenciando. Ou é fantasia ou os outros estão loucos? E lhes digo... não acredite em tudo que você lê. Mas também não duvide!
     Gosto de bancar a detetive quando leio livros policiais (meu novo vício literário) e/ou suspense. E adivinhar quem é o culpado. Quase sempre acabo acertando mas nesse triller psicológico eu errei feio, admito.
      Creio que se reduzisse esse início repetitivo o livro ficaria mais afiado mas como já falei, nada que influencie a hipnotizante história de uma mulher que depois de um trauma sofre de Agorafobia (um transtorno de ansiedade que se refere ao medo de andar nas ruas, dificuldade de sair sozinho de casa entre outras características) e que acompanha a vida de seus vizinhos até a noite em que ela testemunha (ou acha que viu) um assassinato. Ops! SPOILER!!!!
     Daí em diante a narrativa se desenrola em cima deste impactante acontecimento e você começa a se colocar em dúvida se realmente aconteceu ou não, e mais ainda, quem é o assassino, se é que ele realmente existe. 
     Quando cheguei nessa parte do livro não teve jeito, o autor conseguiu me fisgar completamente e não larguei o livro até terminar.
     Uma história envolvente e instigante que prende o leitor e o coloca a prova a cada capítulo na dúvida do que realmente está acontecendo. Parabéns à Editora Arqueiro, esse sim é um SENHOR LIVRO que todos devem ler.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Segredos & Mentiras - Juliana Dantas

Sinopse: 


Uma mentira foi contada.
Com apenas dezesseis anos, a aspirante a modelo Olivia havia se apaixonado e engravidado de Noah Belford, herdeiro de uma importante dinastia política americana.

Porém, o que seria um escândalo iminente, não aconteceu quando a criança nasceu morta. 
Noah e Olivia seguiram suas vidas separadamente, ela se tornando uma famosa modelo e ele se preparando para ingressar na vida política como seu pai, um honorável senador da república.
Um segredo foi guardado.
Nove anos depois Olívia ainda sentia o coração apertado toda vez que via uma criança com a idade que sua filha deveria ter hoje. O vazio que aquela perda deixou em sua vida era algo que nada poderia preencher, nem o fato de ela ter se tornado uma das modelos mais bem pagas e famosas da atualidade.
No entanto, sua vida está prestes a tomar um rumo inesperado, quando reencontra Noah, agora candidato ao senado e os dois são forçados a se unir novamente em prol de algo que nunca poderiam imaginar.
Mentiras descobertas, segredos revelados e um escândalo em andamento numa trama sobre amor, a força do destino e o verdadeiro significado de família. 



Resenha:

Eu particularmente sou suspeita em falar da autora Juliana Dantas, acho a escrita dela fantástica e nada exagerada. Mas vamos falar um pouco do livro que isso é o que interessa.
A estória começa falando de uma grande mentira que foi contada para um jovem casal com a desculpa em que os pais fazem as coisas pensando no que é melhor para os filhos. Nem sempre, óbvio que a gente sempre acha que os pais nunca erram propositalmente. Não nesse livro, os pais deles foram muito cruéis.
Temos Olívia que atualmente é uma das modelos mais famosas do mundo, porém muito ligada a algo triste que aconteceu no seu passado. E Noah que é um jovem candidato ao senado. Há dez anos atrás eles tiveram um relacionamento que não era bem aceito pelos seus pais, pois eles achavam que isto atrapalharia a promissora carreira de ambos e interferiram de forma cruel.
Mas Olívia e Noah terão uma segunda chance e é tão triste ver a insegurança deles e  o tempo que lhes foi tirado, porém ao mesmo tempo o crescimento do relacionamento de ambos faz com que torçamos para que tudo dê certo e eles finalmente possam ser felizes, mas como tudo na vida nada será fácil e será que eles conseguirão o que os seus corações desejam?


"Eu estava totalmente atraída e pensando num jeito dele me notar. Ele tinha que me notar."

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Um amor estrangeiro (Sheila Cruz)



Sinopse
  
    Bianca Giordana de 23 anos decide ir embora da sua cidade natal Curitiba, para tentar vida nova no Rio de Janeiro após sofrer uma agressão física do ex noivo. Enrico não aceita o término do relacionamento e se torna amargo e ressentido. Por ser uma ótima professora de dança, é contratada por uma escola especializada e começa a tocar sua vida. 
   Em uma apresentação no final do ano com o intuito de angariar fundos para uma comunidade carente, conhece o empresário alemão Tommas Krause. E vive uma intensa história de amor, sexo e paixão. 
     Quem disse que conto de fadas não existe?

Resenha

     Bianca viveu um relacionamento abusivo com Enrico por alguns anos, até que ela resolveu se separar e ele (adivinha?) não aceitou. O problema é que ele se tornou agressivo e obcecado em tê-la de volta. Pra fugir dessa situação e votar a viver em paz, Bianca se muda de Curitiba pro Rio de Janeiro, onde divide apartamento com uma amiga e rapidamente consegue um emprego de professora de dança em uma academia. 
     Quando os olhos dela param no alemão Tommas Krause, ela entende que a vida dela vai mudar. Mas o que até então era um sentimento platônico se tornou recíproco numa apresentação de dança, onde Tommas finalmente nota e se atrai pela Bia. 
   O que seria só um jantar, uma noite de sexo foi esticando e ele se viu envolvido totalmente na vida dela quando Enrico descobre seu paradeiro e se revela mais perigoso do que esperávamos, não só ele como sua família. O casal começa, então, uma fuga do psicopata e a relação fica cada vez mais séria, enfrentando juntos todos os obstáculos existentes entre os dois, pela grande diferença de classe social. Será que ele aguenta mesmo enfrentar todos os furacões por ela?
     Leitura leve, quente, rápida e envolvente, onde ficamos aflitas todo o tempo por ela e encantadas pelo alemão mais gato do momento.

terça-feira, 17 de abril de 2018

O Sol na Cabeça


Titulo: O Sol na Cabeça
 Autor: Geovani Martins
Editora:Companhia das Letras
Ano: 2018

Sinopse:
Com a estreia de Geovani Martins, a literatura brasileira encontra a voz de seu novo realismo. Nos treze contos de O sol na cabeça, deparamos com a infância e a adolescência de moradores de favelas – o prazer dos banhos de mar, das brincadeiras de rua, das paqueras e dos baseados –, moduladas pela violência e pela discriminação racial.

Em O sol na cabeça, Geovani Martins narra a infância e a adolescência de garotos para quem às angústias e dificuldades inerentes à idade soma-se a violência de crescer no lado menos favorecido da “Cidade partida”, o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XXI.

Em “Rolézim”, uma turma de adolescentes vai à praia no verão de 2015, quando a PM fluminense, em nome do combate aos arrastões, fazia marcação cerrada aos meninos de favela que pretendessem chegar às areias da Zona Sul. Em “A história do Periquito e do Macaco”, assistimos às mudanças ocorridas na Rocinha após a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora, a UPP. Situado em 2013, quando a maioria da classe média carioca ainda via a iniciativa do secretário de segurança José Beltrame como a panaceia contra todos os males, o conto mostra que, para a população sob o controle da polícia, o segundo “P” da sigla não era exatamente

uma realidade. Em “Estação Padre Miguel”, cinco amigos se veem sob a mira dos fuzis dos traficantes locais.

Nesses e nos outros contos, chama a atenção a capacidade narrativa do escritor, pintando com cores vivas personagens e ambientes sem nunca perder o suspense e o foco na ação. Na literatura brasileira contemporânea, que tantas vezes negligencia a trama em favor de supostas experimentações formais, O sol na cabeça surge como uma mais que bem-vinda novidade.

“Geovani pula da oralidade mais rasgada para o português canônico como quem respira. Uma nova língua brasileira chega à literatura com força inédita.” — João Moreira Salles

“Fiquei chapado.” — Chico Buarque

 Resenha:

Já li muitos livros sobre o cotidiano do Rio de Janeiro, alguns dos ponto de vista da "classe alta", outros da "classe média ", vários deles com foco no morador das periferias. Porém até hoje não tinha lido um livro escrito por de fato alguém que conhece as favelas tão de perto. 

Enquanto Gilberto Gil canta que o Rio de Janeiro continua lindo Giovani Martins mostra abertamente o cotidiano de quem vive no lado feio.
Some um bom autor a um momento ímpar vivido pela população do Rio. O resultado é um fenômeno de vendas. 

Uma das características mais marcantes no livro é o amplo domínio das diversas facetas  linguísticas orais. 

Confesso que me senti bem perdida em alguns contos, talvez por ser de outro estado. Exemplo da minha dificuldade é o primeiro conto Rolezim.
Passei toda leitura do texto buscando compreender sua essência já que as palavras são completamente desconhecidas. 

A história, a identidade e a finalidade do conto em trazer a tona parte do dia a dia de um jovem são bem apresentadas.

Por outro lado alguns outros contos o leitor se conecta facilmente, Espiral traz a tona o quanto o racismo afeta uma pessoa aí longo de sua infância e adolescência. Este me fez refletir. Quantas vezes Santos medo do desconhecido sem qualquer razão ou motivos justificáveis?

Destaco por fim o conto Sextou. O melhor dos contos mostra de forma aberta os sentimentos de raiva/ ódio que a diferença social causa.
 
Questões atuais como racismo, preconceito social, drogas, suicídios, assassinatos causados pela polícia estão no centro dos contos por meio de histórias corriqueiras vividas e contadas pela população local. 

O livro todo remete a uma conversa cotidiana. Me senti em  um bate papo Onde uma pessoa conhecida  conta uma história do dia a dia.

Qual o maior mérito do livro? 

Trazer a tona a voz de quem só é ouvido pela mídia em entrevistas de velório de seus entes queridos mortos por uma "bala perdida". 

Existem milhares de vozes caladas, ansiando para  apresentarem a sociedade, mostrar a realidade sem filtros e principalmente questionar o que é ter direitos iguais e ser considerado um cidadão brasileiro.

Considerações Finais:

A edição do livro é bem trabalhada, assim como a diagramação. A capa é coerente a obra, minimalista e intensa. 

Se você é um leitor avesso a contos, convido a ler o livro de Geovani Martins, sua convicção pode se abalar ao abrir a mente para o processo construido pelo autor.

Com todas as avessas e contradições, a publicação do O Sol na Cabeça representa um marco para a literatura contemporânea brasileira.

Leu? Gostou? Comenta.




domingo, 15 de abril de 2018

Matéria Escura (Blake Crouch)





Título: Matéria Escura
Autor: Blake Crouch
Editora: Intríseca
Páginas: 352
Lançamento original: 2016

Portanto, se o mundo realmente se divide sempre que algo é observado, isso significa que há um número inimaginavelmente grande, infinito, de universos — um multiverso, onde tudo que pode acontecer vai de fato acontecer.” (CROUCH, 2017)

              
Em Matéria Escura, Blake Crouch (roteirista e escritor renomado na atualidade) demonstra uma rara habilidade em tocar num tema pra lá de complexo, tornando-o acessível e incrivelmente intrigante. Que livro, meus amigos e minhas amigas! Uma descoberta que eu vou levar pro resto da minha vida.  O instrumental da história são os estudos de vários físicos brilhantes, sem os quais seria impossível escrever uma obra tão profunda. Afinal, a matéria escura é um dos elementos mais importantes e incompreensíveis deste universo — aliás, multiverso no caso desta obra. Carl Sagan, Neil Degrasse Tyson, Michio Kaku, Rod Bryanton, Amanda Gefter, Stephen Hawking e, num nível mais pessoal, Clifford Johnson, estão entre os incríveis cientistas que deram base ao seu livro.

A obra aqui resenhada foi fruto de uma extensa pesquisa. É daquele tipo de história que eu penso: pqp, eu nunca conseguiria escrever um livro assim. Claro, resultado de uma equipe literária extensa que não se limita aos nomes, e que nomes, citados acima (o autor faz questão de citar cada pessoa no prólogo). Ainda assim, produto de muita dedicação por parte de Crouch. Aliás, uma característica notável do gênero da ficção científica é justamente a consistência que as histórias precisam. É impossível criar algo do gênero sem que se percam noites pesquisando. Não que seja exclusividade da sci-fi, mas é bastante ligado às suas criações. 

Matéria Escura é a obra mais recente de Crouch. O escritor é bastante ativo desde que lançou a sua primeira obra, em 2004, intitulada Desert Places. Desde então, foram doze livros. Notabilizou-se especialmente na trilogia Wayward Pines, que virou série na Fox.  Além disso, é interessante lembrar a sua formação em Escrita Criativa pela Universidade da Carolina no Norte. Portanto, a consistência da sua trama vem, além do “talento natural”, do estudo específico e aprofundado sobre a arte de criar histórias.

Desta vez vou fazer diferente e não vou colocar a sinopse seguida das primeiras palavras. Creio que é preciso situar, de maneira bem simplória, é claro, as ideias principais do livro: matéria escura e multiverso.

Multiverso e matéria escura

O livro se baseia na teoria (ou hipótese, talvez mais adequadamente) do multiverso, segundo a qual existem vários e vários planos de universo. Há algumas variações dessa mesma ideia. A mais conhecida no universo ficcional, nos filmes de super-heróis por exemplo, é a das ramificações de uma mesma realidade, como se as múltiplas realidades fossem galhos de uma mesma árvore - esta é chamada de IMM, Interpretação de Muitos Mundos. Outra bastante difundida é a do Universo Oscilatório, um processo de expansão contínua, provocado pelo Big Bang, que culmina no Big Crunch, a retração do universo, o que desencadeia um processo seguido expansão e retração, ou seja, de Big Bang e de Big Crunch.

A ideia do livro se aproxima da IMM: cada dilema que enfrentamos, cada situação com mais de uma possibilidade, cria universos paralelos. Se eu, Matheus, desistir de estudar em busca de algo que mudará a minha vida, existirá um Matheus2 que escolheu concluir os estudos. Nas estradas bifurcadas, nos trevos, é necessária uma escolha, contudo, de um modo ou de outro acabamos por nos dirigir aos dois caminhos, mesmo que seja em universos diferentes. É um pouco complicado, mas da pra se ter uma ideia.

Uma escolha cria uma realidade alternativa. Existem vários universos, variadas versões de um mundo, de pessoa, de universo.

A matéria escura é uma substância misteriosa que está presente em 70% do universo. Até hoje ninguém conseguiu estudá-la a fundo, mas, a partir da sua força gravitacional, é possível inferir com bastante precisão sobre a sua existência. Uma passagem da revista Mundo Estranho ilustra bem o mistério dessa substância: “É uma parte do Universo que os astrônomos sabem que existe, mas ainda não sabem exatamente o que seja. É matéria, porque se consegue medir sua existência por meio da força gravitacional que ela exerce. E é escura, porque não emite nenhuma luz. Essa segunda propriedade é justamente o que dificulta seu estudo.”

Bom, se os mais renomados cientistas não conseguem definir com precisão a sua existência, mas apenas a sua importância, não vou ser eu o primeiro a elucidar esta questão, ainda mais tentando ser o mais breve possível. Mas o instrumental para se compreender o livro já está em nossas mãos.

Sinopse

Jason é professor de física em uma universidade de Chicago. Daniela é artista. Quando jovens adultos, ambos tiveram imenso potencial para abalar os seus campos de atuação profissional. Eram brilhantes. Entretanto, surge um impasse. O casal, bastante apaixonado, mas ainda com um namoro curto, se depara com a gravidez de Daniela. Eles precisam decidir: construir uma família — que implica em sacrifícios, como jogar fora a dedicação integral à carreira — ou desistir do filho em favor da concretização dos sonhos?

Optam pela família. Quinze anos depois, se encontram seguros, relativamente modestos e com um horizonte um pouco mais restrito. Ela, uma professora de artes; ele, um professor universitário de Física. Um destino bem diferente do que projetaram quando jovens, entusiásticos, sonhadores. Mas é justamente a partir desse momento que se dá o gatilho do romance. Jason, em seu próprio carro, é raptado por um estranho encapuzado, que o trata com agressividade e, drogando-o, consegue extrair todas as informações da sua vida e... troca de universo com ele. Porque esse estranho é Jason. Um Jason de um universo em que ele escolheu a carreira, não os filhos. Um Jason com máxima potencialidade científica, contra um Jason com a máxima satisfação familiar, que o autor trata por Jason2.

Jason acorda num mundo completamente diverso. Uma Chicago quase idêntica, não fosse por ele ser um dos cientistas mais renomados do mundo. Mas ele não se reconhece como parte integrante daquilo. Precisa encontrar uma forma de manipular a maior invenção do Jason2: com a matéria escura, sua versão genial criou um portal multidimensional capaz de transportá-lo a outras versões de si mesmo e, inclusive, resolver o seu maior arrependimento: o de ter matado a si mesmo em favor de um trabalho febril que o adoeceu mais do que o satisfez. 

Jason, então, precisa ser mais esperto do que... ele mesmo, mas um “ele mesmo” que é um dos cientistas mais consolidados do mundo, que passou a vida adulta inteira trabalhando, sem trégua alguma. Só assim poderá reaver o convívio com o seu filho e com Daniela, e sobretudo afastar o perigo de uma pessoa que, apesar de tudo, é um estranho.

O que ficou do que passou: q u a l i d a d e

Numa prosa visual e minimalista, o autor surpreende o leitor a cada página. Uma das minhas impressões principais é a de que estou assistindo um filme (mas eu costumo dormir assistindo filme; bom, entendam: um filme bem legal). Sua qualidade e originalidade conferem uma abertura das portas da percepção para a consistência das obras que saem hoje. O clássico não está só no passado. O que é bom não é necessariamente aquilo que passou, que está distante e intocável como um ideal longínquo; a qualidade continua se construindo e pode estar bem perto de você. Um autor espetacular pode estar bem do seu ladinho e você, eu, nós todos não damos o devido valor. Podemos estar com olhos vendados pelas convenções literárias. Cada geração se reinventa com seu próprio estilo. Devemos ficar bem atentos às novidades que vem por aí e isso serve especialmente para mim.

Não posso esquecer o meu sentimento mais forte, apesar de toda essa bagunça científica e univérsica: a valorização das pessoas mais próximas com as quais convivo. Que “reflitão”! A mesma coisa que me acontece quando eu li As primeiras quinze vidas de Harry August, um vozerio espaço-temporal que desnorteia a minha percepção das relações humanas.

Eu não sou o mais indicado para falar em roteiros, em sua coerência ou não, se existem furos ou não. Mas posso afirmar que foi justamente a consistência roteirística o que mais me chamou a atenção. Parece quase impossível encontrar soluções para os conflitos do protagonista. São conflitos científicos, extremamente complexos subjetivamente para o protagonista, e até do ponto de vista da trama, mas Blake Crouch demonstrou ser um exímio escritor para dar um acabamento tão legal. Ganhou mais um leitor. Os próximos que vou ler são os mais consolidados, a trilogia Wayward Paynes. Não sei quando, porque não gosto de conectar muitas obras de um escritor só.  Trabalho com a possibilidade de uma vida longa, então é melhor eu não esgotar tão rápido as obras dos(as) melhores autores(as). Há especulação de que o livro Matéria Escura vai ser adaptado para uma produção audiovisual.

Aguardo com ansiedade!...

Matheus Andrade,

15/04/2018